top of page

RELEVÂNCIA

Foto do escritor: Caio SantanaCaio Santana

Atualizado: 11 de dez. de 2023

Relevância nos dias atuais: pode ser tudo (para os outros), menos fútil


Na década de 1990, os concursos de beleza passaram por uma crise de audiência, lembra Henrique Fontes. De importante ator na grade do entretenimento global, concursos como o Miss Universo, que já foi um dos programas televisivos mais vistos do mundo, viram seus números despencar, mas a expansão da internet possibilitou um respiro: agora, fãs do mundo todo estavam interconectados em prol de uma paixão em comum. Foi justamente nesse período que surgiu o site Global Beauties, em 1998, comandado por Henrique Fontes.


Hoje, se os concursos que já vêm de uma sequência de alterações, por exemplo, eleições de misses que tenham nível alto de conhecimento e desenvoltura comunicacional, a visão da maioria da população ainda é de que a miss é apenas uma pessoa bonita que serve para ser bonita e dar o famoso tchauzinho.



Jakelyne Oliveira dando o tchauzinho de miss após ganhar o Miss Brasil 2013. Créditos: Reprodução

"Já faz um tempo que os concursos mudaram e passaram a dar mais vozes às mulheres, para que elas mostrem as suas histórias e a mensagem que queiram levar. Acredito que hoje, mais importante que a estética e a beleza, é a mensagem que você carrega", afirma Raissa Santana, Miss Brasil e Top 13 no Miss Universo 2016, que hoje é influenciadora digital.


Seu trabalho como influenciadora só foi possível graças ao Miss Brasil, que abriu essa porta de entrada como oportunidade para que ela mudasse de vida e construísse uma carreira: "É um meio para que você alcance outras pessoas com sua mensagem, mas que também pode mudar de vida. Mesmo que hoje eu não tenha tanta visibilidade, tenho a rede social que faz com que as pessoas [que me seguem] me vejam. Dá para conquistar uma base de seguidores, com isso você já pode trabalhar e tornar isso uma carreira. Mas tento contar para as meninas que não é tão fácil. Tem que se preparar, principalmente emocionalmente, para mim é o principal".


Raissa Santana, Miss Brasil 2016. Créditos: Alan Morici/FramePhoto/Estadão Conteúdo

Sua relevância nos dias de hoje deve ser encarada como uma chance única para quem realmente quer fazer do meio uma catapulta para o sucesso: “Os concursos são essa grande plataforma que cada miss que souber usar eles assim, pode abrir as portas que ela quiser contando a história de maneira estratégica. Infelizmente a cobertura dos próprios concursos é muito superficial e vazia perto de tudo que realmente representa a dedicação dessas mulheres na sociedade que elas têm, na sua cidade, estado, país. Isso faz com que a comunidade de modo geral não valorize porque o próprio concurso não sabe vender o concurso. Acredito que há uma falha muito grande de marketing e por isso a gente não pode cobrar que a população apoie uma coisa que está claramente sendo mal vendida”, pontua Julia Gama.


Luinara Menezes, da Signum, reconhece que os concursos de hoje não têm muita relevância: “Existe uma bolha e essa bolha acredita que os concursos vêm crescendo. Eu estou inserida nela, mas sempre tento olhar de fora para ver se consigo enxergar como a maioria da população enxerga. Vejo nas ruas, quando ando com minhas alunas misses RJ de várias franquias, que as pessoas ficam admiradas e querem tirar fotos, mas não há interesse ou talvez o mundo miss não alcance aquela pessoa por falta de mais publicidade dentro da mídia tradicional como a televisão e nas redes sociais”


“Para mim as misses sempre foram mulheres inteligentes, tenho mania de olhar concursos antigos e vejo respostas inteligentes e mulheres com diversas graduações. Só que antigamente os apresentadores e jurados não focavam nessa parte e sim nas medidas e no rosto. Hoje os jurados e apresentadores não mostram mais as medidas e trazem à tona a vivência de cada uma delas com suas histórias, projetos sociais e conhecimentos acadêmicos e isso é o que difere os concursos de hoje e do passado. Meu incentivo vem primeiro da vontade ou não que aquela mulher me mostra que tem de participar. Se ela me mostrar vontade de participar, eu incentivo. Também incentivo quando vejo que é alguma menina de família humilde e quer ascender socialmente e tem chances de fazer isso através do mundo miss. Neste caso a Signum faz um trabalho gratuito para que ela possa ter todo o conhecimento, atrelado a sua beleza e com isso possa fazer desse conjunto uma forma de vivenciar o concurso da melhor maneira e sair, ao final dele, vencedora”, revela Luinara.


Considerando lamentável esse momento de pouca importância dos concursos atualmente, Eder Ignacio acredita que isso possa estar atrelado a falta de uma transmissão em rede aberta e também em mais investimento de mídia: “Tudo poderia ser diferente. Principalmente se fizéssemos enfim uma Miss Universo. A relevância é imensa, a Miss hoje é um exemplo de cidadã, uma mulher exemplo, a mulher estuda, é dona de casa, é esposa, é solidária a causas sociais, é uma potencial exemplo de como ser ser humano nos tempos atuais”.


“O concurso de beleza, hoje em dia, se encontra neste momento enfrentando essa dificuldade de um interesse maior da população, justamente por ele parecer que incentiva essa coisa retrógrada das mulheres competindo umas coisas outras. Mas o meu ponto de vista é de que o concurso não é para estimular a competição feminina. Ele é para estimular a competição de você encontrar a sua melhor versão. Porque se você enquanto competidora não olhar para o lado, não precisa ficar preocupada com o que a coleguinha está ou não fazendo, de você olhar só para você, aproveitar esse momento. Que é um momento em que você, a miss é diferente da modelo, ela não tá ali desfilando e vendendo um produto, ela está desfilando, fazendo entrevista preliminar, respondendo pergunta de Top 5 para mostrar a voz dela, quem é ela, os seus princípios, o que ela acredita, usar a sua voz para inspirar pessoas. Eu acho isso tão atual, é uma pena que mais pessoas não percebam”, lamenta Lorena Rodrigues.


"Devo tanto aos concursos de beleza por tudo que eu já vivi e até por hoje onde eu estou, trabalhando com o que estou. Se eu tô aqui é porque eu tenho credibilidade no que eu falo, no que eu faço, e nem sempre eu ganhei. Mas eu nunca desisti. Nunca desisti de buscar a minha melhor versão, nunca desisti da Lorena. Nem troquei de personalidade porque eu estava competindo e eu prezo muito em demonstrar isso para as pessoas que eu preparo hoje em dia", completa.


Gabriela Isler, Miss Venezuela 2012 e Miss Universo 2013. Créditos: Alexander Nemenov/AFP.

Para Ana Maria Fonseca de Oliveira Batista, pesquisadora sobre a construção dos conceitos de beleza e feminilidade no Brasil com um mestrado de antropologia social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com o título “O Telefone Sem Fio, A Sobrinha do Presidente e As Duas Polegadas a Mais - concepções de beleza no concurso de Miss Universo”, os concursos de beleza como produto de entretenimento vão continuar existindo. Contudo, é mais por uma necessidade da sociedade em si, mesmo que ela, até o presente momento, não se veja representada como um todo ali na tela da televisão ou do celular vendo um concurso.


“As pessoas têm necessidade de glamour, de uma certa evasão. Não importa que a gente chegue nas ruas de Caracas e veja que existem mulheres que são muito fora dos padrões de miss, que não tem nada a ver com a população em geral. A miss é outra coisa, produzida e trabalhada, é criada. No caso da Venezuela, é criada [mesmo], o [preparador] Osmel Sousa construiu uma escola de misses. Mas eles [os concursos] existem porque as pessoas precisam de evasão: as pessoas assistem comédias, romances, fantasia, não querem estar sempre conectadas a realidade do dia-a-dia, é necessário uma certa possibilidade de evasão e os concursos entram nisso”, explica a pesquisadora.



Osmel Sousa com finalistas do Miss Venezuela 2017, último ano que comandou o nacional venezuelano. Créditos: EFE/Nathalie Sayago

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

ENTREVISTADOS

Ana Maria Fonseca de Oliveira Batista, professora, com mestrado em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Aretha...

BIBLIOGRAFIA

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SANTANA, Caio. Nicarágua vence o Miss Universo 2023 e leva 1ª coroa; Brasil não classifica. Disponível em:...

1 Comment


MorganaQuestera Beauty Pageants
MorganaQuestera Beauty Pageants
Dec 23, 2023

Gente, a foto do Osmel com as Misses Venezuela em 1917 diz tudo. Foi brilhante de sua parte tê-la incluído.

Like
bottom of page